Renascer com cinzas nas asas
Eu queria renascer limpo.
Sem marcas, sem restos, sem lembrar do que e do porque me queimou.
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Mas tô achando que não é assim que se renasce.
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Eu acho que, se um dia for pra renascer de novo, eu preciso saber que esse nascer sempre terá alguma coisa a ver com o incêndio.
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Cinzas nas asas.
Minhas asas nunca mais serão da mesma cor.
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Eu não sobrevivi.
Eu não tirei aprendizados.
Eu não fiquei melhor como pessoa.
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Só queimou tudo aqui dentro mesmo.
E agora só tem sujeira.
Só tem sujeira.
E se um dia eu me mostrar, e se um dia eu voltar a me mostrar, só vai ter sujeira pra se ver.
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Eu não supero.
Eu não superei.
Eu não aprendi.
Eu não vou aprender.
E talvez renascer seja isso: não voltar a ser quem eu era antes de pegar fogo da forma como eu peguei.
Que tal se convencer, reconhecer, de que renascer é só conseguir abrir as asas sabendo que nelas só existe cinza mesmo?
Um peso.
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Já tomei muito banho.
Já tentei me lavar de todo jeito.
Eu não preciso mais fingir!
Eu nunca mais vou voar fingindo que não me feri, que não me queimei, que não to queimado.
Algumas cinzas precisam cair.
Algumas podem ficar.
E que eu nunca esqueça que mesmo depois do fogo ainda existe céu.

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