A curvatura da vara
Atualizado: há 55 minutos
Quanto é preciso entortar para deixar de viver torto?
Quando aquilo que me deformou se tornou parte da minha forma, voltar a ser quem eu era ainda é possível?
A curvatura como gesto de sobrevivência.
Fui ensinado a ser alguma coisa, experimento não ser.
Passei a vida tentando corresponder, experimento não corresponder.
Passei a vida aprendendo a me controlar, experimento, então, o descontrole.
Se aprendi a permanecer… e se eu partir?
Se “aprendi” a ser alguém, e se eu experimentar por mim mesmo desconhecer quem eu sou?
Passei tanto tempo tentando ser eu que só depois percebi que esse “eu” era a curvatura que o mundo havia deixado em mim.
Fiquei pensando sobre isso. E me ocorreu, por vezes, ser necessário curvar bastante para um lado, já que o mundo te curvou tanto para o outro que tu ficou drasticamente empenado (em termos de saúde mental, cansaço, perda de sentido da vida etc.). Agora, já empenado, tu tenta uma radicalidade para tentar chegar, pelo menos, ao centro do que tu era ou do que deveria ser / ter sido.
Está para além do equilíbrio.
Penso que, quando se enverga a vara radicalmente para o outro lado, não se esteja querendo chegar à radicalidade de seu oposto, mas simplesmente utilizar a envergadura radical como um instrumento.
Quando fomos suficientemente empenados para uma direção, talvez seja necessário nos curvar radicalmente para a direção oposta apenas para conseguir voltar ao centro.
O objetivo não é o outro extremo [por mais que eu goste de extremos].
A pessoa que passou anos vivendo para os outros talvez precise aprender a ser radicalmente egoísta por algum tempo.
Quem viveu tentando controlar tudo talvez precise aprender a deixar as coisas acontecerem.
Quem perdeu completamente o desejo talvez precise procurar, obsessivamente, alguma coisa que ainda faça o corpo vibrar.
Realmente não é ver o extremo como a cura, mas ver um extremo como possibilidade de desfazimento de uma deformação anterior.
Talvez alguém de fora esteja dizendo: “Tu estás exagerando.”
Meu bem, quem viveu fui eu.
Só eu sei o que doeu aqui dentro e aqui fora.
Tu só esqueceste o quanto eu exagerei foi para o outro lado.
Às vezes, aquilo que parece excesso quando observado isoladamente é apenas a medida necessária para compensar uma deformação que já durava tanto tempo.

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