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Vergonha de dar a flor e o constrangimento de ser passiva

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inventandorobson null
há 1 dia
3 min de leitura

Atualizado: há 53 minutos

Eu tenho vergonha de dar a flor.


Pronto.


Pensemos o que seja ter vergonha e o que seja não querer alguma coisa.


Eu quero.

Eu sinto.


Não aceito.


Eu geralmente penetro.

Sou "ativo".

E, durante muito tempo, tratei isso como se fosse simplesmente uma preferência.


“Eu sou ativo.” Como se eu tivesse nascido desse jeito.


Mas é claro que eu sei que não é isso.


Às vezes acho que sou ativo porque aprendi, na minha própria cabeça, a ser.


Sim, sei que isso é profundamente machista, tanto na cabeça quanto na forma como aprendemos a ocupar o próprio corpo. Mas, enfim.


Penetrar acaba sendo ocupar, dominar, conduzir, enfim, fazer.


Em quantos momentos tu aprendestes a ser aquele que come?

Em quantos momentos tu aprendestes a ser comido? E ser passivo...


Ser passivo é dar?

É abrir?

É deixar?


Preconceito?


O próprio problema de falar/escrever “cu” já evidencia esse problema.


Flor.


Vontade


Não consigo.


Não permito.


Eu sei quando meu corpo diz não.


E sei quando ele se abre em sim.


Passivo é ser menos homem?


Homem?


Dar é se submeter?

Quem penetra manda?

Quem recebe perde?

Quem recebe pede?


Na minha cabeça existe algum tipo de humilhação escondida em deixar alguém entrar.


É curioso porque, quando dois homens transam, aparentemente deveria existir uma liberdade enorme para experimentar lugares do desejo. Talvez em outros relacionamentos ou relações realmente exista.


A gente chega na cama carregando uma história inteira.


Me pergunto sobre essa história o tempo inteiro. Ou estória, vai saber.


Masculinidade.

Machismo.

Medo.

Vergonha.


Pornografia.


.

Eu não tenho vergonha de ver um homem dando o cu. Eu tenho vergonha de imaginar que esse homem sou eu.

O tal do mito do Homem.


Do homem de verdade.


Controle.


E eu não quero trazer o cu para um território político, claro, sabendo plenamente que o é.


Mas pensando geopoliticamente, meu cu virou uma fronteira. Com barreira. Com muitas condições. E com pouco entra e sai.


É engraçado como “passivo” carrega a brutal quantidade de significados pejorativos que não têm, ao fim e ao cabo, absolutamente nada a ver com sexo.


Será que eu tenho medo de ser lido como aquele que não age?


Mas aí eu me pergunto:


Eu conseguiria esperar?

Receber?

Ser dominado?

Ser conduzido?


Não tomar iniciativa, tal qual a etimologia dessa passividade.


Pensando mais a frente, para além dessa conveniência, e se considerando que o passivo é tudo isso aí mesmo que dizem:::::::::::: eu conseguiria ser passivo?


.


O que me matou foi a obrigação permanente de estar no lugar da ação.

Isso não no sexo. NA VIDA.


.


Enfim.


Só constrangimentos, flor.


Não te deixo despetalar porque seria como um decréscimo de degrau, na minha cabeça machista.


Menos forte.

Menos desejável.

Menos alguma coisa.


Sendo que a meu ver a "passividade" EXALA desejo, sedução, atração.


Os passivos são ATRAENTES.


Atraem tudo para dentro.


Mas menos o quê?


Essa é a pergunta que eu nunca consigo responder já sabendo a resposta.


Eu não tenho vergonha do meu desejo. Mas não o efetivo.


Acho mesmo é que só tenho vergonha daquilo que aprendi que o meu desejo deveria significar.


Talvez eu não tenha vergonha de querer dar. Talvez eu tenha vergonha de querer aquilo que me ensinaram que eu não deveria gostar.


Dos teus desejos quantos realmente são teus?


Quantos foram autorizados?


Quais proibidos?


Quais classificados como masculinos?


E quantos como femininos?


Quantos benzidos como naturais?


Quantos intitulados de vergonhosos?


E quantos a gente simplesmente nunca experimentou porque alguém, em algum momento, fez uma piada?


Ninguém precisa te proibir diretamente.


Uma cultura inteira repetindo que receber é inferior a penetrar.


E pronto.


Tu mesmo te vigia.

Tu mesmo te censura.

Tu mesmo fecha a porta.


Tu mesmo: “Não consigo.”


E talvez consiga.


Virtude.

Defeito.


Mais ou menos digno?


Dignidade na cama?


E eu só estou escrevendo tudo isso porque claramente não consegui superar ou me livrar dessa lógica.


E eu não vou fingir que consegui.


Não vou transformar esse texto numa celebração da liberdade sexual que eu não sinto.


E talvez seja justamente por isso que eu precise escrever.

Porque talvez escrever seja uma maneira de começar a desmontar aquilo que eu aprendi a esconder.


“Será que eu sou?”


Parece a pergunta de quando eu afirmadamente me reconheci como homossexual.


Para mim, isso está parecendo mais uma saída do armário. Assumir-se passivona!

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