Dançar a vida antes da coreografia
Primeiro isso.
Primeiro aquilo.
Se acontecer isso.
Se não acontecer aquilo.
Só se acontecer isso e aquilo.
Agora avança. Agora para. Agora vira.
Enfim.
Como se viver pudesse ser tão assim.
.
Escolhas.
Consequências.
Apoios.
Quedas. Nem sempre recuperações.
O mito de que o meu corpo tudo aprende, inclusive a coreografia da vida e até mesmo a vida como coreografia.
Eu sempre quis saber o que vem depois daquilo que em dança ficou estigmatizado como “passo”.
Quando ir pra cá, quando ir pra lá.
Onde eu vou estar.
Onde eu devo estar.
Fazendo o quê?! Onde?!
Vou pular a parte do roteiro.
Engraçado como eu invento regra pra tudo.
Pra tudo mesmo. Até pro sexo.
Até pro respiro.
Até pro suspiro.
Dancei a vida como se eu tivesse dançando sempre pra alguém.
“Como” não. Dancei a vida sempre alguéns.
Agora to aqui, sem saber os passinhos das próximas “danças”.
Avaliação.
Comparação.
E agora falta de movimentação.
Talvez, na verdade quase que certamente, eu tenha confundido tudo.
Estudar.
Trabalhar.
Comprar.
Organizar.
Comprar.
Viajar.
Comprar.
Construir.
Destruir.
Só esqueci de criar.
Criar a vida que vivo agora sem paz.
Esqueci do que escrevi quando disse que errar também era dança.
Enfim.
Lá vai eu pro improviso sem querer improvisar.
Aí eu lembro que eu só sei improvisar e nada mais.
Não vai dar tudo certo.
Não deu tudo certo.
E eu não posso esperar que sempre vá dar.
Perdi o ensaio da vida.
Agora não dá mais pra se preparar.

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