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Eu sonhei que escrevia com água no meu diário

Foto do escritor: inventandorobson null
inventandorobson null
15 de jul.
4 min de leitura

Eu sonhei que escrevia com água em duas páginas do meu diário.


Eu comecei a escrever com água e não com caneta.


No sonho isso foi angustiante, mas, ao mesmo tempo, incrível.


Escrever com água é escrever sabendo que vai desaparecer.


É quase o oposto da internet, onde tudo visa permanecer, e, assim, falhar miseravelmente por se deparar com a efemeridade das centenas de milhares de pessoas que acreditam na mesma coisa, como venho dizendo nos últimos posts.


Naquele momento eu me angustiava porque não conseguia lembrar do que tinha escrito segundos depois de ter registrado frases inteiras.


Acho que com esse sonho aprendi que diário não foi feito para permanecer, mas para esquecer (d)o que se escreve.


As palavras apareciam normalmente, como um texto normal. Eu reconhecia a minha letra - era belíssima. As frases faziam sentido, no entanto, a tinta era aquosa.


Enquanto eu escrevia, as palavras já iam desaparecendo.


Tu tens noção que eu não errava?!


Não havia rasura nem borrão, era tudo precisamente escrito com água.


Não tinham páginas arrancadas. A escrita simplesmente voltava a ser página.


Acordei antes de descobrir se aquilo era um pesadelo ou um ensinamento!


Eu tenho certeza que escrevo para desaparecer.


Sempre fui obcecado pela permanência.


Fotografei uma vida para guardar e não necessariamente postar alguma coisa. Apenas para gravar.


Filmei para registrar o que nunca seria revisitado. Assim como arquivei conversas e favoritei mensagens que nunca seriam lidas de novo.


Fiz backup de uma infinidade de coisas que nunca mais abri e que certamente nunca mais se abrirão.


Eu tinha na cabeça que o desaparecimento era sempre uma derrota.


E agora o meu sonho parece dizer exatamente o avesso.


Escrever com água é duramente, friamente e poeticissimamente aceitar que nem toda palavra nasceu para durar, mas sim com algum tipo de duração.


Que nem tudo nasceu para durar.


Que nada durará pra sempre.


Que tudo nunca dura!


Eu escrevia em um caderno físico.

Utilizei-me de duas folhas de papel para escrever coisas muito importantes nesse sonho, coisas que necessariamente precisavam sair de mim.


E eu as coloquei pra fora! 


Com uma certa velocidade “registrava” tudo naquelas duas folhas de papel até que percebi que não eram mais registros.


Percebi que a minha expressão era efêmera!


Ao passo de que acatei que o meu diário quer físico ou, aqui, digitalmente, é apenas um lugar efêmero e da efemeridade.


Aparentemente, um diário parece existir para preservar memória. Porém, não na minha vida, não na minha existência, não na minha instância onírica.


Naquele momento eu só escrevia para permitir que coisas finalmente pudessem sair e ir embora.


Há sentimentos que só conseguem deixar de nos habitar depois que encontram uma página, uma coreografia, um sopro, um vento... um "em branco".


“Diarizar” me alivia.


Porém, a água me ensina que ela não fixa.


Enquanto alguns parágrafos eu forçosamente tentava escrever á tinta preta, tentando a todo custo vencer o tempo e o esquecimento, a água majestosamente vinha como aquilo que não ficava sequer um tempo, mas que se deixa passar por dentro dele.


A água apagava muito rápido.


Eu não via nada evaporando, eu só via quando já tinha ido.


Evapora - e ela me convocava.


Ela molhava, infiltrava - e me convocava.


Ela desaparecia - e me convocava.


Nem tudo que ficou precisaria ter ficado pra se fazer ter feito estado.


Algumas palavras nascem para serem esquecidas. Talvez eu também tenha nascido para isso.


Estou me dando conta! 


Nem tudo o que fomos, somos e seremos merece tornar-se memória permanente.


Há de se dar passagem para o passageiro. Passagem para um lugar bem diferente. Bem bem distante.


Não dá para gravar tudo em pedra.


Esquecer também é forma de se manter vivo e sobrevivendo.


Talvez por isso a água fizesse sentido.

Ela veio me lembrar que sentir e jogar é mais importante do que conservar.


Se a internet escreve com tinta, eu quero aguar. 


Aguo em meu diário, porque ele aceita desaparecer.


As minhas redes desapareceram porque desejaram permanecer!


Perceba que elas [as redes] acumulam muitas versões de quem fomos. Mas nós mudamos. E, por vezes, algumas palavras, fotos, imagens, assim como a gente, só tivessem que ter o direito de desaparecer conosco.


.


As ondas escrevem na areia. A chuva escreve no arado. Os rios escrevem caminhos sobre a terra. O vento escreve sonhos nos desertos.


Mas nenhuma dessas escritas um dia se pretenderam durar eternas.


Permanência não significa importar.


O que tem importância as vezes não dura.


.


Hoje não sonho mais em deixar marcas.


Se um dia eu escrever um livro, que seja com letras de água.


Com letras aquosas.


Pois, o que aconteceria se toda escrita desaparecesse?


Imagine terminar um texto sabendo que, em poucos minutos, ele deixará de existir.


Tu ainda escreverias?


Continuaria se escrevendo?


Se a resposta for sim, talvez tudo isso nunca tenha sido sobre publicar, mas sobre respirar o alívio de nunca precisar ter sido.


A tua vida não é útil e nem cumpre função. Ela só existe no momento exato da fruição.


Tua vida é escrita com água que vai desapare-ser.


Desaparece.


Depois disso… tu podes partir.


.


Acordei sem aquele diário. Sem aquela memória. Sem aquela lembrança.


Acordei querendo lembrar o que tinha escrito.


Mas sabe do que eu lembrei? 

Apenas do sorriso e das lágrimas que no sonho se conservaria em duas páginas que não conservavam nada.


Sem conseguir lembrar do que eu havia escrito, lembro perfeitamente da sensação de vê-las desaparecendo.


E que a minha experiência de vida seja tão intensa quanto as páginas do infinito.

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