Desaparecer das redes é sumir da vida?
O que já te fez te sentir vivo muito provavelmente nada teve a ver com tu te veres sozinho em um quarto escuro.
Sumir tem a ver com sair dos holofotes e sair dos holofotes, por sua vez, tem múltiplos fatores: mudar de cidade, trocar de endereço, parar de escrever, sair dos palcos... Enfim, sumir também tem a ver com diminuir os encontros e, de repente, tu estares deparado somente com as vozes da tua cabeça, isso se tu as escutares.
Mas, venho falar de um desaparecer, de um sumir que é praticamente universalizado hoje: o ato de não se fazer mais presente nas redes e hoje, praticamente de modo tautológico, sair, deixar ou abandonar as redes significar necessariamente uma desistência do ato de existir, visto que o existir vê-se condicionado ao ser visto. Logo, qual plataforma vira a se tornar o maior palco existencial já que já vimos?
Enfim. Não quero aqui apenas relatar, descrever o óbvio, mas, no óbvio, acrescer a dor de ter sumido drasticamente do meu tempo.
A minha, as nossas existências, já há algum tempo, recondicionaram-se às plataformas sociais virtuais por meio de uma dependência ontológica das publicações recorrentes. Chegamos a um ponto em que, se você vai a um restaurante e não publica isso, seu próprio cérebro parece ter dificuldade em reconhecer plenamente que essa experiência, de fato, aconteceu.
Quando saí das redes (ou fui retirado à força) foi comum ouvir: você está bem? Sumiu! Nunca mais te vi!
Esse "Nunca mais te vi!" apenas confirmou que não ser visto, nestes tempos, corresponde a ter desistido da existência, do seu próprio ato de existir.
Vim me provocar ao pensamento escrito. E agora sinto que não sou lido.
Deixar de ocupar determinados espaços destinados à existência aparente me fez desaparecer deste plano? Sim, este aqui, o "real".
Agora, o que seria o real nesse conjunto de des-realidades que se autodissolvem e dissolvem tudo a sua volta?
Enfim - de novo - viver se tornou muito, mas muito menos importante do que registrar o "vivido".
EMOLDURE A EXPERIÊNCIA!
Tu já reparastes que uma viajem não termina quando tu voltas pra tua casa? Após o vivido, tu simplesmente te pegas escolhendo quais fotos vão ser publicadas com fins de provar por A + B que, de fato, tu viajastes, sob pena de que, caso não postes, tu acabe te perguntando: mas será que eu fui mesmo?
Aquele teu almoço especial simplesmente perde a opacidade caso não tenha sido retido em e à uma imagem, de preferência nítida e bem enquadrada. "TEM QUE ESTAR PERFEITA!".
A passagem de um aniversário que não foi nas redes publicizada, torna-se completamente ofensiva pela parte que não foi homenageada publicamente.
Eu só tenho me perguntado quando foi que começamos a confundir e a simplesmente suplantar a experiência vivida ante o seu registro e posterior publicação.
Sem mais nem menos, apenas ser visto. Me notem! Tô aqui! Tô vivo! Tá vendo?!
CONSIGO PROVAR QUE ESTOU AQUI: Curte!
Quando passamos a acreditar que aquilo que não foi publicado, mostrado corre o risco de não ter acontecido? É cabível ser passível de crença que uma pessoa pode ter saído das redes e estar vivendo intensamente?
Não vou nem pedir sinceridade para responder a estas questões, pois já não se sabe nem o que é mais ser sincero hoje em dia!
Eu só tenho pra te dizer que essa pessoa - que no caso refere-se a mim mesmo - começa a questionar se de fato tem mesmo lido, amado, sonhado, trabalhado, só porque não tem postado o trecho do livro em curso ou as dificuldades da profissão.
Não tenho andado, suado, caído, me ralado, porque essas coisas só executam, recebem e transmutam estatutos de validade caso alguém os receba e comprove que estou sangrando.
O mundo continua acontecendo e eu estou aqui perguntando se de fato estou acordado.
Deixar de transmitir o mundo faz com que a impressão de que ele não exista só cresça.
O mundo não continua acontecendo!
Só eu tenho não sabido dizer o quanto minha ansiedade por uma rolagem infinita não tem me deixado dormir, andar, escrever sozinho.
A vida parece deixar de existir quando escrevo e não sou lido, quando sou premiado e não recebo curtidas, quando perco e não recebo comentários. ENFIM!
Desaparecer, nos nossos tempos, nunca esteve nos planos. Evidência disso foi Jout Jout ter sido perseguida em sua casa durante sua decisão de afastamento, "isolamento". As pessoas não deixam e não querem que tu desapareça!
TU TENS QUE DAR SATISFAÇÃO DA TUA VIDA!
ELAS PRECISAM SABER!
Agora: quem somos quando não estamos compartilhando? Sem curtidas, sem likes, sem comentários, sem reposts, sem "Que tudo, amiga!!!!", "Você está linda!", "Parabéns!!!", "Você merece!".
Enfim. Estou descansando, e descansar parece autoabandono.
Como é viver sem confirmação externa?
Continuamos lendo aquele livro difícil quando o lemos sem falar pra todo mundo que ele é realmente difícil?
Continuamos, de fato, escrevendo blogs já que nunca serão lidos?
Continuamos admirando o pôr-do-sol de cima de uma ponte, e ainda por cima batendo palmas pra ele?
Eu não sei o que fizemos com essa vida que só existe com documentação. Nos acabamos! Fomos acabados!
Como eu sobrevivo sem memória?
Como viver em um mundo que acaba quando termina?
Meus vestígios apagados agora não resumem nem confirmam a minha existência.

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