A doença existencial das redes
As redes sociais destruíram e construíram uma nova noção de ser humano.
Da necessidade de sermos vistos, lembrados, até a existência apenas confirmada externamente, a angústia e o fenecimento dos próprios porquês da vida acabam por inundar um ser humano oco de si mesmo, se é que o "si mesmo" exista.
Quando você, que tem sede de ser visto e lembrado, percebe que não é o único que quer isso, tudo começa a fazer uma grande bagunça dentro de uma coisa que não estava preparada para tanta confusão: o você-corpo.
Você percebe e descobre que não basta viver, mas que precisaria parecer estar vivendo.
No entanto, nesta lida, depara-se com algo ainda maior: o fato simples de todo mundo também querer parecer e aparentar estar vivendo tornando você só mais um.
Durante alguma parte da tua vida - caso tenhas vivido o início do fenômeno da internet - viver bastava. Brincar no quintal bastava. O quintal bastava. E, de repente, já não bastava mais.
Antes você se sentia, hoje não se sente mais.
Antes você se via, hoje já não se vê mais.
Até a explosão das redes sociais, você primeiro vivia e depois postava. E agora? você vive ou mais posta?
O story antecedeu a memória. O algoritmo determinou a lembrança. A existência deixou de ser suficiente!
Entre o existir e o viver erigiu um intermediário: o publicado.
O acontecimento só se completa quando atravessa uma tela e chega até sua retina. Mas, por quanto tempo fica ali retido? Dois segundos? Com certeza menos.
A legitimação da vida e de si mesmo pelas redes sociais arruinou aquilo que existia de saudável no quintal das casas; arruinou as casa; baniu a experiência. A experiência é determinada.
Aprendemos a enxergar as redes apenas como arquivos e não necessariamente apenas mais um atravessamento de vida. A virtualidade que guarda todas as datas jamais conversaria em pé de igualdade com a gente, que por ser gente, esquece.
Guardar, salvar e acumular é aquilo que, comum do humano, apenas se potencializou com gigantescas nuvens de armazenamentos que, desde o início, apenas propuseram substituir a tua mente.
Imagens.
Vídeos.
Conversas.
Lugares.
Enfim.
Em quais destes lugares tu estivestes mesmo?
A gente só esqueceu de lembrar que memória também foi feita para esquecer e ser esquecida.
Memória brinca do que era pra ter sido, brinca de ter estado em determinados lugares.
A memória brinca com a reinvenção das coisas e daquilo que deveria consistir, mas que não se tornou consistente.
Lugares e conversas se misturam.
Misturam para reconstruir aquilo que existiu, mas que ainda pode mudar.
Aquilo que certamente ainda mudará ainda está em curso mesmo que já tenha acontecido.
Humanos nunca estiveram aqui apenas para conservar algo, atos, mas para constituir e criar aquilo que ainda "falta". Humano cria e faz perder sentidos.
Entulhamo-nos, tu concordas?
Entulhamo-nos daquilo que sequer daríamos conta de guardar, pois disseram que tu deverias aguentar mais um pouquinho por ter adquirido.
Põe na conta tudo o que tu adquiristes.
E agora vê se tu dá conta.
Talvez estejamos construindo o maior arquivo da nossa história enquanto humanidade, porém, paradoxalmente, desenvolvendo a maior perda da capacidade de lembrar que já obtivemos enquanto conhecimento.
Lembrar exige calma e paciência, ou seja, tudo que não temos e somos ensinados a desaprender.
Não há tempo de lembrar quem ou que nós somos, nem individualmente, muito menos em coletividade.
Já tá na hora de postar um outro story. Vai lá! Posta! Posta logo! Vai logo!!!
POSTA!!!
Como agora eu estou postando.
Que o meu medo de desparecer desapareça comigo!
Que o meu não medo de não aparecer floresça comigo!
Que desaparecer faça sentido!
E que não aparecer APAREÇA comigo!
Tomara que o mundo escute e te esqueça! Que tu morras e apodreça!
Tomara que tu não tenhas nada para mostrar!
E que tu mude e não se reconheça!
Tomara que tu vá!
E que perceba que quem inventa esse medo tem medo que tu não seja e pereça.
Tomara que tu venha a te mostrar quando ninguém te veja.
Sair das redes não é escolha, É RESPIRAR PARA QUE ALGO ACONTEÇA!
.
Desorganize a economia da tua imagem, dos teus aparecimentos.
Fenecer e parecer efêmero é fazer de si também algo que aconteça.
Esqueça-se por um tempo até lembrar quem andou contigo até esse momento.
Fortalece o teu enfraquecimento com fins de tornares o puro emburrecimento desse tempo.
Ser burro é estar fora das redes e recusá-las.
Quero emburrecer a ponto de esquecer que só existi ou existo lá.
Que a minha morte súbita na digitalização do meu “eu” caia em desgraça e apague da minha memória que um dia fui refém de um “mim mesmo” que nunca se pareceu comigo. Que a atenção que eu exigi que me dessem se reverta na invenção de um modo de existir e que eu me reconheça nos símbolos que eu mesmo me criei para não mais me ver só de um jeito.
Que seja súbita a morte do hábito de se matar em prol da fake sociabilidade das redes.
Que tu coloques à prova que o que tu provas ser ou ter vivido não tem o teu gosto naquele cardápio de rede.
Que tu circules dentro de ti tu lembres que ser feliz não condiz com todos os testemunhos de existências que em testamentos tu juras que serão lidos.
O teu quinta está ali! Ele está implodindo a aquisição de validade dada no excesso empobrecedor da existência mimética do conto que tu mesmo te contou só que saindo da boca dos outros.
Entendo socioontologicamente que há conversas que pertencem apenas a quem estava presente, que existem livros que mudam alguém apenas no silêncio de seus impactos e que têm lutos que nunca vão caber no teu story.
Vê se morre, e caso nasças de novo, que nasças vivo, como alguém que desmantelou aquilo que te desmantelava.
Quem tu serias se não tivesse interrompido um pôr-do-sol só pra procurar o teu telefone?
.
O teu algorítimo não conhece o valor das coisas.
Tu conheces?
Tu adoecestes porque esquecestes de continuar criando os sentidos e os significados das coisas. Tu simplesmente jogou o jogo do copia e cola, montando um cenário de vida com os adesivos que te deram para pseudo sentir prazer.
Que prazer é esse?
Enfim.
E se tu apareceres em outro lugar sendo outro?
A angústia existencial ocasionada pelas redes não merece o teu beijo!
Um beijo.

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