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Tô sem Instagram e TikTok: vou ficar louca

Foto do escritor: inventandorobson null
inventandorobson null
27 de ago.
4 min de leitura

O que acontece quando tiramos um vício, quer dizer, uma rede social da nossa vida?


O que acontece quando retiramos algo que não só foi pregado como essencial, mas que, no fim e ao cabo, virou uma extensão sem escolha da nossa vida?


Não tenho mais a mesma atenção, sequer a mesma percepção da vida e da realidade.


O Instagram eu fui obrigado a abandonar, mas o TikTok eu escolhi largar hoje. E, sim, fazem 45 minutos que eu tô sem ele e parece que já me falta o ar.


Eu vou ser sincero em dizer que em momento algum achei que seria fácil, até porque, caso assim fosse, as pessoas não andariam que nem zumbis por aí.


Porém, viver essa dificuldade nesses últimos tempos parece estar sendo comparado ao acontecimento de uma grande tragédia. Realmente parece ser o fim dos tempos. Eu acho que a conexão tem disso. Eu acho que a hiperconectibilidade tem a ver com isso.


Parece que alguém morreu, e esse alguém fui eu.

Parece que o mundo continuou lá fora e eu fiquei aqui, trancado aqui dentro do quarto.


E, sim, eu não sei o que fazer aqui dentro.


Isso me lembra muito quando eu era criança, pois, quando criança, eu brincava muito sozinho, principalmente entre as 13h e as 16h. As tardes eram só minhas em casa, e eu era só meu, então eu tinha que inventar companhias, por vezes distrações, por vezes encantos sobre-humanos para continuar vivendo comigo mesmo. Porém, viver sozinho, brincar sozinho não era um problema neste momento.


Eu fiquei pensando agora que eu sequer pensava no que eu ia fazer durante todas essas tardes. Eu só fazia. Eu ia fazendo, eu só ia brincando.


Hoje, agora, eu me pergunto: misericórdia, meu Deus, o que eu vou fazer com esses 5, 10, 15 minutos que eu tenho e que não fico rolando feed, ou um scroll infinito?


Esse meu pavor veio agorinha, assim que saí da escola pra comprar um lanche. Quando peço o lanche, logo me vem, imediatamente, à cabeça: o que eu vou fazer agora?!


Não tem o que fazer!

Não tem o que rolar!!!!!


E, imediatamente, me questiono: e os 5 minutos esperando alguma coisa? E os muitos minutos antes de dormir? E os primeiros segundos logo após acordar? E na hora do banheiro, gente?! Como vai ser isso?!

E agora, na hora que não tiver nada acontecendo?


Será que eu vou conseguir esperar a comida ficar pronta?


Todos os milhares de minutos que eu já tinha perdido, de repente, voltaram! E eu não sei o que fazer com tudo isso!


Como é escutar o silêncio?


Será que um dia vou conseguir fazer uma refeição sem precisar olhar pra uma tela?


Hoje tem muita gente falando do tédio como um lugar, um lugar que, segundo eles, tem que ser habitado.

Pois bem, agora coloca um peixe pra voar pelo céu!


.


Aprendemos que o tédio é uma coisa pra se corrigir.


Por mais que afirmemos querer um espaço, depende muito do espaço que somos capazes de querer habitar.


Enfim.


O tédio, pra mim, sempre tá num lugar de convite pra todo quanto é tipo de pensamento que não presta.


Desde lembranças ridículas que já queria ter esquecido faz tempo até o quanto de coisas que realmente importam precisam ser imediatamente resolvidas.


.


Enfim.


.


Pega o celular. Desbloqueia o celular. Procura o celular. Procura alguma coisa no celular.


Tudo isso de redes fez eu esquecer meus próprios hábitos, quereres, gostos, a minha própria consciência.


Eu não sei o caminho.


O que eu me pego pensando é que: todo mundo acha que escolhe estar nas redes sociais e que pode sair a hora que quiser ou bem entender. Eu pensava isso, acreditava piamente na minha autonomia. Porém, sequer precisa de chá revelação pro que obviamente já estava claro que iria acontecer.


Tu não escolhe o que ver, ler, vestir, calçar, sentir.


Enfim.


A gente sabe que tem muita gente trabalhando não só para nos atrair para as redes, mas principalmente para nos manter por lá. Um grande grito de “NÃO VÁ EMBORA!”.


.


A gente vai realmente chamar isso de lazer?


A minha atenção é um produto!


A minha patetice é um produto!


A minha burrice e o meu emburrecimento pela falta de atenção é um produto valioso!


Tem muita gente querendo comprar ela!


Tem gente querendo ME OCUPAR antes até de mim mesmo.


Eu tô consumindo ou eu tô sendo consumido como conteúdo?!!!!


.


E tu ainda chama isso de passatempo?


.


Deixa eu te falar que a vida parece muito, mas muito mais lenta sem as redes!


O dia parece maior.


Parece que tem mais espaço entre as coisas.


Às vezes penso que tem até oxigênio demais!!!


Tudo dura muito! Até o almoço, tu acreditas?


Até esperar uma pessoa, agora, deixa de ser uma sequência de vídeos, mas simplesmente uma espera! Uma espera mesmo, daquelas tediosonas!


As redes não só ocupam o tempo, elas o comprimem!


.


Mas, enfim, há a dor de não estar rolando.

Eu sinto falta, sinto dor ao sentir falta.


Falta de “seguir”, seguir páginas, descobrir coisas, acompanhar acontecimentos.


Parece que rir de besteira, na minha vida, ficou a cargo de vídeos de humor no TikTok.


Dá pra se pensar também que uma biblioteca não se trata de uma coisa ruim, porém não se vive necessariamente o dia inteiro dentro delá.


Enfim.


.


Diversão?

Dopamina?

Contatos?

Distração?

Ou apenas eu não querendo ficar comigo mesmo?


.


Sem Instagram, continuo existindo?


Parece óbvio. E é mesmo óbvio que não!


Aparecendo é lembrado. Desaparecendo não existe.


Perdi, infeliz ou felizmente, o ritmo social da presença digital.


.


Se ninguém sabe o que estou fazendo, isso ainda conta como estar vivendo?


.


Talvez eu esteja reaprendendo a desaparecer.


Como viver uma experiência ou TODAS AS EXPERIÊNCIAS sem precisar que virem conteúdos?


Estamos acostumados a ter testemunhas pra tudo.


E agora que não as tenho, eu vou ficar louca?


Talvez reaprender a esperar me deixe louca.

Talvez reaprender a ficar em silêncio me deixe louca.

Talvez aprender a perder muitas coisas me deixe louca.


Talvez eu nunca volte a existir por não ter plateia.


Mas, para alguém que tentou por tanto tempo preencher cada segundo da própria vida em todos os sentidos, aprender a deixar a vida com algumas lacunas pode realmente me deixar louco!

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